quinta-feira, 21 de abril de 2011

MEIO AMBIENTE. AMAZ?

Meio ambiente. “Amaz”? Quando o assunto é meio ambiente, os prognósticos para os próximos anos são alarmantes. Em posso afirmar que não há exagero nessa afirmação. A preocupação com o desenvolvimento sustentado ganhou espaço em todo lugar. Estamos diante de alguns dilemas. Haverá água para todos? Comida? Qual será o efeito do superaquecimento global? As perguntas proliferam e as respostas são nebulosas. Desde a década de 50 a economia mundial praticamente quintuplicou seu tamanho. Quase metade dos seis bilhões de habitantes do planeta hoje vive em cidades e o mundo moderno, que trouxe a tecnologia, definiu novos padrões de comportamento e, consequentemente, gerando o impacto ambiental. Some-se a isso o crescimento da população, que deverá atingir nove bilhões de habitantes até o ano 2050. O leque de consequências será variado: de tempestades e furacões mais constantes e intensos à diminuição do potencial da agricultura e da pesca, incluindo a disseminação de doenças tropicais. Ninguém ficará livre dos perigos. O que poderá acontecer no Brasil? Qual a saída? Convencer os adultos. A minha vó já dizia que “pau que nasce torto, morre torto”. Sendo difícil “endireitar” a cabeça dos adultos, melhor investir nas cabeças novas que estão aí. Falo das crianças. Só elas poderão salvar o planeta. Penso que amor à natureza não se ensina! Este é estimulado, vivido! Isso só acontecerá se as crianças forem incentivadas a parar e ouvir com o coração o barulho de uma cachoeira, o tilintar dos galhos das árvores ou o canto de um pássaro, ou a vida em sociedade das abelhas ou formigas, o barulho da chuva, o desenvolvimento da espiritualidade... Estou falando de sensibilidade, percepção, amor, criatividade, imaginação, ingredientes indispensáveis aos novos cidadãos e cidadãs que pretendemos formar. Mas, para isso, os professores, os pais e toda a sociedade precisam acreditar que esses valores precisam ser resgatados com urgência! Para isso é preciso amar. Partindo dessa premissa, criei o “Amaz - O Macaquinho Azul”. AMAZ, é um personagem envolvente que tem como objetivo conscientizar e despertar as crianças para necessidade da preservação ambiental. O personagem AMAZ - é uma homenagem ao Estado do Amazonas. Veio ao mundo, diferente, para mostrar às crianças que só elas podem salvar o mundo. O livro, relançado na última Feira do Livro de Porto Alegre, pode contribuir muito para a mudança comportamental das crianças em relação ao meio ambiente por que o conteúdo é baseado nos princípios da Educação Emocional. Ensina a criança a desenvolver o senso de respeito, de importância e de responsabilidade. Não apenas dizendo-lhes ou impondo-lhes responsabilidades, mas compartilhando responsabilidades com ela. Para ensiná-las a respeitar valores fundamentais da humanidade, é necessário ensinar-lhes a respeitar-se a si mesmo. Creio que nenhum outro personagem no mundo foi criado com esta intenção. Está comprovado: só o respeito fundamental aos sentimentos, emoções e valores individuais podem construir um cidadão responsável e emocionalmente pronto para a vida social e produtiva. Portanto. Viva às nossas crianças. Para um planeta em agonia, AMAZ. Técnico Agrícola e Jornalista

APRENDENDO COM AS FORMIGAS

Quando pequeno o meu avô dizia: observe os animais. Eles sempre tem
uma mensagem para passar. Sem fui de observar as formigas. A
propósito, deparei-me com informações sobre elas, na internet, que
reforçam o referido interesse. Desde que surgiram, há 140 milhões de
anos, alguma coisa elas devem ter aprendido como, por exemplo, a viver
em cooperação. Dizem que as formigas não são inteligentes, mas um
formigueiro... Individualmente, as formigas podem ser criaturas
estúpidas, mas reunidas em formigueiros reagem ao ambiente com rapidez
e eficiência. Ao fazer isso, revelam algo que ficou conhecido de
"inteligência de enxame". O surgimento desse tipo de inteligência está
associado a uma questão fundamental na natureza: como se explica que
as ações simples de cada indivíduo resultem no comportamento complexo
do grupo? Como centenas de abelhas fazem para tomar uma decisão
crucial a respeito da colmeia quando muitas delas estão em desacordo?
As habilidades coletivas desses animais parecem milagrosas até mesmo
para os biólogos que dedicam a vida a estudá-los. Durante as últimas
décadas, porém, eles vêm acumulando uma série de descobertas
intrigantes sobre o assunto. Um elemento crucial em um formigueiro,
por exemplo, é o fato de que ninguém está no comando. Não há nenhum
general à frente das formigas-soldados. Não há gerentes controlando as
operárias. Quanto à abelha-rainha, sua única função é pôr ovos. Mesmo
com meio milhão de formigas, uma colônia funciona muito bem sem nenhum
sistema de controle - pelo menos não há nada reconhecível nesse
sentido. Em vez disso, o funcionamento da colônia está baseado em
incontáveis interações entre as formigas individuais, cada qual
seguindo regras práticas muito simples. Os cientistas descrevem
sistemas desse tipo como sendo auto-organizados.
O cientista Marco Dorigo, especializado em computação e vinculado à
Université Libre em Bruxelas, aproveitou seu conhecimento do
comportamento das formigas para criar, em 1991, procedimentos
matemáticos destinados à solução de problemas humanos cotidianos muito
complexos, tais como a definição de rotas de caminhões e as reservas
de passagens em companhias aéreas.
Em Houston, por exemplo, a companhia American Air Liquide adotou uma
estratégia baseada nas formigas para resolver um problema empresarial.
Com a ajuda do Bios Group (atualmente NuTech Solutions), uma empresa
especializada em inteligência artificial, a Air Liquide desenvolveu um
modelo digital baseado em algoritmos inspirados no comportamento
forrageiro das formigas-argentinas, uma espécie que secreta
substâncias químicas conhecidas como "feromônios". Quando carregam
alimentos para o formigueiro, essas formigas deixam uma trilha de
feromônio, que indica para as outras formigas onde estas podem
conseguir comida, explica Harper. "A trilha de feromônio é reforçada
cada vez que passa uma formiga em uma ou outra direção, mais ou menos
como uma trilha muito usada no meio da mata. Por isso criamos um
programa que envia bilhões de formigas digitais para que descubram
onde estão as trilhas de feromônio mais fortes para as rotas de nossos
caminhões.
Outras companhias também estão lucrando ao imitar o comportamento das
formigas. Na Itália e na Suíça, frotas de caminhões para entrega de
leite e laticínios, óleo para o aquecimento doméstico e alimentos em
geral também recorrem às regras das formigas forrageiras para
determinar as melhores rotas. Na Inglaterra e na França, companhias
telefônicas ampliaram o tráfego de chamadas em suas redes depois de
programarem as mensagens para que depositem feromônios virtuais em
estações de distribuição, tal como as formigas deixam sinais para que
suas companheiras encontrem as melhores trilhas. Realmente ela têm
muito a nos ensinar. Como dizia Raul Seixas, “A formiga é pequena, mas
elas são um exército quando juntas”.


LUIZ ROBERTO DALPIAZ RECH

O QUE QUE O GAÚCHO TEM?

Luiz Roberto Dalpiaz Rech

O Fórum Democrático de Desenvolvimento da Assembleia Legislativa,
através do seu Colégio Deliberativo, integrado por mais de 30
entidades da sociedade civil, organizações patronais, sindicais,
profissionais, universidades, instâncias federativas, bancadas
partidárias e conselhos regionais de desenvolvimento, definiu quatro
grandes temas a serem discutidos em 2010: 1) Ações Cooperadas e
Desenvolvimento; 2) Participação e Controle Social; 3) Ações
Ambientais; 4) Potencialidades Econômicas do Tradicionalismo Gaúcho.

No item Ações Cooperadas e Desenvolvimento, serão debatidos assuntos
como redes de cooperação, arranjos produtivos regionais,
cooperativismo, empreendedorismo e novas formas de cooperação para a
geração de emprego e renda. O tema Participação e Controle Social
trará discussões sobre fomento ao controle social da gestão pública e
da execução orçamentária. Já o tema Ações Ambientais promoverá
debates sobre o bioma pampa, os comitês de bacias hidrográficas e a
saúde ambiental com vistas à melhoria da qualidade de vida.

E, finalmente, no contexto Potencialidades Econômicas do
Tradicionalismo Gaúcho, sugerido, desde já, pela presidência da Casa,
os debates serão para “levantar poeira!”.

Peguemos o exemplo do Estado da Bahia, que fez a lição de casa: sabe
utilizar excelentemente bem a influência da música e da cultura na
economia. Por que nós, gaúchos, com este folclore riquíssimo que só
engrandece a nossa cultura, não fizemos o mesmo?

Essa pergunta que não quer calar ficará no ar como um desafio a todos
os participantes do Fórum, porque ela se desdobra em questionamentos
inadiáveis, tais como: qual a potencialidade econômica do movimento
tradicionalista do Estado? Quantas indumentárias são confeccionadas,
divulgadas e comercializadas? Qual é exatamente o consumo de
erva-mate consumida pelos gaúchos e outros apreciadores dessa gaudéria
bebida? Quantos desfiles são realizados? E rodeios? Dizem que são
centenas e que mais da metade constituem-se no principal evento do
município. E CTGs construídos? E a criação de cavalos? Alguns
criadores chegam a afirmar que existem mais de 20 mil animais
confinados somente aqui em Porto Alegre. Sem falar nas dezenas de
associações de cavalos, de várias raças, e a ração que estes consomem.

E os fandangos, quantos são realizados e quanto, em termos de
economia, isso representa, se levarmos em conta os veículos
utilizados, combustível consumido, a prestação de serviços (empregos)
que é gerada? E a indústria impressa e fonográfica movimentadas?
Editoras e gravadoras que digam! Sem falar nas churrascarias,
programas de rádios, TVs, sites, blogs e até lembrancinhas nativistas
(souvenires) que são encontradas em qualquer parte deste mundão de
Deus?

Como se vê, são tantas questões que ficam para o debate, incluindo-se
ainda, a questão da produção de erva-mate (será que o consumo
atingiria os números atuais não fosse o apelo tradicionalista?); os
concorridos festivais que cantam e encantam o nosso Rio Grande
(oportunizando o surgimento de grandes poetas e compositores).

Por incrível que pareça, o Movimento Tradicionalista Gaúcho, órgão
reconhecido e aplaudido pela ONU como a maior organização cívico
sócio-cultural da América, não possui estes números! Nem mesmo o
Governo e sequer as associações culturais do nosso Estado os possui.
Daí este ser o maior desafio do Fórum Democrático da Assembleia
Legislativa: descobrir o que é que o gaúcho tem. Pois a Bahia sabe há
muito tempo o que é que a baiana tem...

Ex- Diretor do Fórum Democrático da Assembleia Legislativa do RGS

O POLITICO HOLÍSTICO

O político holístico parte de um disciplinamento de que é preciso cuidar do povo como um todo, mas aí vem o partido e diz: - é apenas uma parte.

O holismo é o resgate da dimensão ético/moral no seu sentido mais profundo. Consiste num compromisso com a humanidade, com a preservação da natureza e com o estabelecimento de uma relação revolucionária entre homens, animais e plantas. Todos os elementos fazem parte de um grande TODO.
O holismo traz uma proposta de atuação integral do ser consigo mesmo e com o outro.
Nunca o termo "holístico" foi tão utilizado quanto nos últimos anos. A visão holística do mundo aparentemente foi descoberta há pouco, como uma (con)seqüência da visão mecanicista de Robert Boyle. Porém o pensamento holístico foi concebido há milênios, quando a visão mística foi substituída pela observação e interpretação racional, e teve seu apogeu na Grécia Antiga.
Mas, o que vem a ser holístico? Antes de qualquer conjectura, deve-se ter uma visão profunda do termo. Aliás, uma visão holística. Pois bem, a palavra vem do grego e significa, grosso modo, o todo; o íntegro, o completo. De maneira mais clara: holístico é aquilo que se refere ao holismo, que é a "tendência” própria do universo, ou do UNIVERSALIZANTE, a sintetizar unidades em totalidades organizadas".
A nova abordagem holística vem penetrando, inexoravelmente, em todos os ramos do conhecimento humano, sendo este o momento oportuno de introduzi-la na política, pois o problema da "questão moral dos políticos" é decorrente da educação dos seus operadores; que, na sua maioria, exercem suas funções limitadas por paradigmas ultrapassados, muitas vezes de forma individualista, materialista e burocrática.
Por estarmos vivenciando hoje uma conjuntura mundial favorável a estas mudanças, a adoção desta nova consciência holística, pode ser implantada rapidamente. Da mesma forma que o fim da Idade Média foi o começo de uma nova era, denominada Renascimento ou Renascença, trazendo no seu bojo um movimento renovador filosófico-científico-artístico, em todas as camadas da sociedade. Também no início deste Milênio, um novo Renascimento está surgindo, talvez como um verdadeiro marco redefinidor da história da consciência humana, o que sugere as condições para a adoção do “político holístico", que resolveria, finalmente, os problemas que afetam a sociedade.
O político holístico parte de um disciplinamento de que é preciso cuidar do povo como um todo, mas aí vem o partido e diz: - é apenas uma parte.
Com o declínio da visão newtoniano-cartesiana de um universo dividido, fragmentado, com características do antigo paradigma mecanista e reducionista, é preciso adotar uma visão cósmica da vida, em que todas as coisas estão interligadas e compõem o GRANDE TODO. Através das descobertas da Física Quântica, em que Albert Einstein demonstrou ser a matéria uma forma de energia, foi se cristalizando, gradativamente, um novo "Paradigma Holístico", difundido no Brasil pelo Prof. Pierre Weil, Reitor da Universidade Holística Internacional de Brasília - UNIPAZ. Esta nova visão holística implica na criação de pontes sobre todas as fronteiras do conhecimento humano, dentro do conceito de "transdisciplinaridade", ou seja, o encontro das ciências, filosofias, artes e tradições religiosas, eliminando-se assim estas fronteiras geradoras de dualidades e causadoras de conflitos.
Como toda a matéria é formada de energia, ou melhor, é energia em certa graduação vibratória, estamos todos interagindo energeticamente, ou seja, estamos interligados uns aos outros e com a natureza, de forma indissociável.
E é exatamente desta nova consciência holística, que nascem a fraternidade, a cooperação, a solidariedade e o amor entre pessoas e nações: esta nova situação humana levará o SER a um novo nível de progresso e evolução.
SÓ FALTA OS POLÍTICOS ENTENDEREM ISSO!

Luiz Roberto Dalpiaz Rech Administrador Legislativo

O PUNHAL E A POLÍTICA

Luiz Roberto Dalpiaz Rech

Segundo um provérbio Chinês, há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a oportunidade perdida e a palavra pronunciada.
Abstraio a primeira e a segunda e fico com a palavra dita que, além de não voltar atrás pode provocar um verdadeiro tsumani por onde passa. Ou, ao contrário. Pode realizar verdadeiros milagres.
Certo dia, ao abrir um dos jornais de grande circulação, deparei com uma manchete que, num primeiro momento parecia um pouco bizarra mas, aos poucos, passei a entender o real sentido daquela frase. Dizia o seguinte: “Noite dos longos punhais”. Era uma referência ao debate sobre a CPMF, por parlamentares no Congresso Nacional. A matéria concluía assim: “Foi uma noite de punhaladas” referindo-se, obviamente aos discursos (verdadeiros punhais) que tinham como alvo o presidente Lula e membros da sua equipe econômica.
Você já pensou sobre a força das palavras? Sim, afinal, as palavras podem libertar e oprimir, alegrar e entristecer, fazer viver e fazer morrer, aliviar e angustiar, rir e chorar, incentivar e esmorecer, amar e odiar como provocar uma avalanche de denúncias e escândalos. Esses ficam por conta de áudios gravados durante operações da Polícia Federal, que investiga fraudes em licitações de obras no Estado. Nas gravações, constam diálogos de deputados que supostamente agiriam em benefício de empresas privadas. Lembro-me que, em relação a estes áudios, um parlamentar disse estar “enojado” do que acabara de ouvir (da palavra dita).
A escritora Lya Luft afirma que a palavra faz parte da nossa essência: com ela, nos acercamos do outro, nos entregamos ou nos negamos, apaziguamos, ferimos e matamos. Com a palavra, liquidamos negócios, amores. Eu complementaria essa lista afirmando que a palavra LIBERTA, mas também CONDENA.
Além do conteúdo das palavras, existe a forma de como elas são ditas.
Uma conhecida história árabe diz que, certa vez um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou mandou chamar um adivinho para que interpretasse o sonho.
- Que desgraça, senhor, falou o adivinho. Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade!
- Mas que insolente, gritou o sultão enfurecido. Como te atreves? Fora daqui!
Chamou os guardas e mandou que dessem cem chibatadas no adivinho.
O sultão chamou então, outro adivinho, que após ouvir o sultão disse:
- Senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haverá de sobreviver a todos os vossos parentes.
A fisionomia do sultão iluminou-se e ele mandou dar cem moedas de ouro ao segundo adivinho.
E quando este saía do palácio, um dos guardas lhe disse admirado.
- Não é possível! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com cem açoites e a você com cem moedas de ouro?
- Lembra-te meu amigo, respondeu o adivinho. Tudo depende da maneira de dizer as coisas.
É à força da palavra – ou punhal.

Jornalista. Administrador Legislativo

O DESABAFO DO MARRECO

Dias desses resolvi visitar o “Marreco”. Pensei comigo, visitá-lo durante a semana será um desperdício, afinal, o trabalho na roça não tem descanso. “Marreco” deve estar removendo a terra com arado de bois, realizando alguma roçada, ou simplesmente, limpando o feijão preto em alguma roça do morro.
Enganei-me. Ao chegar às proximidades da casa já o avistei, sentado a varanda, olhando firme o horizonte.
Comentei com a minha esposa. O “marreco” só pode estar doente para estar assim, plantado que nem pé de couve. Mal estacionara o carro, fomos recebidos com euforia pelo guaipequinha faceiro, que contrastava com o semblante sério e sizudo do tio agricultor.
Depois de um – “sai pra lá vinagre” - meio anasalado, o “marreco” veio em nossa direção a passo lento, mas, com ares de decidido.
- Pués então sobrinho, que ventos te trazem aqui?
- Saudades da terra e de todos, tio “marreco”, respondi.
- Pués então, tchê, mate logo a saudades antes que eles nos expulsem daqui.
- Como assim tio, quem é que quer te expulsar, se a casa é tua, a propriedade também (foi herdada do meu avô), não estou entendendo, afirmei.
- Mas então tu não sabes? – perguntou, meio assombrado. - Tá todo mundo dizendo que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
“Veja só: o sítio de meu pai, que agora é meu, fica a 17 km da cidade. A água do poço daqui lembra? Limpa, pura, que a vovó servia pra ti e os primos, nos arretouços da infância? Pois é a mesma água com que ela criou 5 filhas e seis filhos. Não faz muito, um homem do governo passou aqui e disse que tenho que fechar o poço, fazer uma tal de outorga, pagar umas taxas e mais um monte de coisas.
Eu lhe disse: – Moço, mas foi meu pai que cavô... E ele respondeu: é um caso de saúde muito sério! - e foi embora.
Sem falar na produção do fumo, sobrinho. Antes, eu, a mulher e tua prima Lia, dávamos conta do recado, mas tive que mandar a Lia pra cidade, depois que vi uma reportagem na televisão: eu podia ser acusado de exploração de menor! Já pensou? Ela me ajudava muito no cultivo do fumo; ficando sozinho, tu sabes como tudo é trabalhoso, arar a terra, preparar as mudas, plantar, colher, secar na estufa, fazer manoco, prensar, tive que contratar um ajudante. Ainda te lembras do Rui? Pois é, se foi para cidade e pediu trabalho para o filho dele, que não tinha nem onde morar. Assinei-lhe a carteira, como manda a lei. E dei-lhe o quarto da nossa filha. Faceiro, que nem gringo de tamanco novo, já fazia parte da família. Mas vieram umas pessoas da Delegacia do Trabalho, e falaram que se o empregado (para mim - um filho!) fosse cuidar da estufa à noite, tinha que receber adicional noturno, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo. Tu já trabalhaste no fumo, né, sobrinho, então tu sabes do que estou falando. Como é que vou desligar a estufa e parar a secagem nos finais de semana? Ele também me ajudava no leite, que é outra fonte de renda aqui em casa, garantida pela Cooperativa que compra a produção. Como vou dizer pra vaquinha que agora o leite tem dia e hora pra ela soltar?
O pessoal da Delegacia do Trabalho foi examinar o quarto do empregado. Acharam a cama curta, claro, era da minha filha, menor que ele. Olha, sobrinho, se ele ficava com os pés de fora, pra mim nunca se queixou! Ainda bem que eu tinha trocado, uns dias antes, o lampião a querosene pela luz que recém chegou através do programa do governo, senão iam me processar por isso também.
Sabe a comida gostosa que tua tia faz? O Vanil, nosso empregado, comia com a gente na mesa (era, como eu disse, da família!). Explicaram-me que, por lei, a comida tinha que integrar o salário dele. Quando foram embora, cheio de tristeza, chamei o Vanil e não contendo as lágrimas, o despedi. No outro dia ele pegou o ônibus e foi pra cidade. Depois, disso, a última notícia que tive dele é que foi parar numa delegacia, o agrediram e ficou deficiente de um ouvido.
Sem a ajuda do Vanil parei com o fumo. Comprei mais uma vaquinha e a mulher ajuda, apesar das dores que adquiriu nas cadeiras e da bexiga caída desde que ganhou a nossa filha. Às 5 da manhã eu levo o tarro até a estrada e espero pacientemente o caminhão da Cooperativa. Se chove, nem saio de casa. O riacho enche e quem se diverte com o leite são os porcos. Melhor, se divertiam, hoje o leite vai todinho fora.
Agora, vieram outros homens aqui, e um policial, dizendo que eu tinha que encerrar a criação de porcos, pois o chiqueiro estava a menos de 20m do riacho. Deram-me um prazo para resolver o problema. Medi aqui, medi ali e nada de conseguir chegar aos 30 metros exigidos. Ganhei uma multa tão pesada, que nem a nossa mula podia carregar! O dinheiro da venda dos porquinhos, das tábuas e das telhas foi insuficientes para pagar. Tive que recorrer a uma poupancinha da minha filha, que juntara durante anos para quando casasse. Deu processo, fui chamado pelo promotor. Tive que levar junto um advogado, tentei lhe pagar com o leite da Malhada e meia dúzia de ovos da Marilu, mas ele não aceitou. Ainda bem que a Cooperativa me salvou de novo. Condenado, tive que pagar 2 cestas básicas e dar para uma comunidade carente. Disseram que eu estava poluindo o rio e poderia até ser preso.
Já pensou eu na prisão, sobrinho? O que iam dizer de mim na comunidade? Com que cara eu iria à missa aos domingos, à cancha reta, ao jogo do osso? Eu seria capaz de cometer uma bobagem!!
Então eu te pergunto: lá onde tu moras, na cidade grande, também tem rio, riacho ou coisa parecida? Tem! Quer dizer que cada um que joga alguma coisa no rio também é multado? Coitada dessa gente! Se aqui é assim, imagina lá. Deve ter muito mais gente multada, e não deve existir nenhum tipo de lixo...
Só sei que aqui no mato a gente não pode sujar o rio. Muito menos cortar uma árvore, tirar um cabo de ancinho, de enxada ou de machado sem autorização do pessoal do batalhão ambiental.
Noutro dia multaram o Nozari. Lembra do Nozari, né, que estudou contigo? Jogava uma bola! Ganhando um dinheirinho na cidade, voltou pra cá pra cuidar da terra do falecido pai dele. Pois então, juro pelos meus olhos: ele levou uma multa do batalhão, tão grande, que nem vendendo tudo o que tem na vida paga a metade dela. É um dinheirão. Ele até contratou um doutor para recorrer. O crime dele foi querer plantar. Tinha que ver o desencanto dele. Chegou a dizer pra mim: “marreco”, eu não sabia que não podia aumentar a área da minha rocinha. Se pelo menos tivesse falado no colégio o meu filho teria avisado.
E, para variar, comigo aconteceu algo parecido com o Nozari. Sabe aquele pinheiro que o tio Arcanjo havia plantado? Pois é, resolvi aproveitar a madeira antes que destruísse o nosso galpão.
Ressabiado, fui até o batalhão pedir autorização. Preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer o tal de laudo e, então, autorizar o aproveitamento da madeira. Passou uma semana, duas, três e nada. Cada ventinho que batia eu via o galpão vindo abaixo com a queda do pinheiro. Um dia falei pra mulher: chega de esperar e meti o machado nele! Dito e feito. Parece que o pessoal do batalhão ouviu o estrondo da árvore e no dia seguinte apareceram pra me multar. Logo pensei no caso dos porcos, no promotor, nas cestas básicas. Passei uns três dias tomando chá de laranjeira para me acalmar. Pensei: se a multa for que nem a do vizinho vou ter que vender o sitio para pagá-la. Se não pagar me processam e ainda sou capaz de perder a terra e tudo o que consegui até hoje. Não quero ficar com uma mão na frente e outra atrás que nem o Antonio. O caso dele não foi por causa dos homens do batalhão, mas por ter comprado um tratorzinho. A coisa não andou como ele queria, muita seca, produziu pouco e não conseguiu pagar o financiamento. O Banco não perdoou. Sem a máquina, ele vai ter que arar com os bois. É mais trabalhoso e lento, mas fazer o quê!
Tou preocupado sobrinho. Dizem que os deputados vão aprovar uma nova lei ambiental e que a coisa vai arrochar ainda mais para o nosso lado. O rádio não para de falar nisso. Noutro dia assisti a uma palestra onde um doutor disse que vamos ter que nos adaptar as novas normas que vem por ai. É a tal de reserva legal. A rádio disse que quem tiver uma sanguinha na propriedade, que é o meu caso, vai ter que plantar 30 metros de mata de cada lado.
O homem falou de mais um monte de normas que vamos ter que nos adequar. São tantas que nem lembro direito.

Será que estas novas normas também valem para a pessoal da cidade?
Olha sobrinho, é melhor vender tudo e ir para a cidade grande. Lá não tem problema nenhum. Com o dinheiro do sitio compro uma casinha, com luz elétrica, TV sem parabólica e não precisa criar porco, galinha e produzir alface, leite, queijo, chimia. É só abrir a geladeira e tá tudo ali. Também vou comprar um telefone, muito útil em casos de emergência, e o hospital fica perto. Eu e tu vamos ser vizinhos na cidade. Nem vou contar que vim do interior, senão o promotor vai mandar me prender dizendo que fugi dos meus “crimes” lá no campo!


O “marreco”, para informação do leitor, é meu tio. Temos praticamente a mesma idade. Estudávamos juntos na escola Hilário Ribeiro na comunidade da Barra do Ouro, interior do município de Maquiné. Aos 15 anos eu decidi ir para a cidade. O Marreco ficou. Ficou com o sitio, cuidando da plantação, respirando ar puro, sentindo o cheiro da mata, vendo o cintilar das águas puras dos rios e ouvindo o pampeano cantar das saracuras. Mal sabia ele que o preço que teria que “pagar” para usufruir deste “paraíso”.

Jornalista,

NUNCA NA HISTÓRIA DESTE PAÍS... VIXE!

NUNCA NA HISTÓRIA DESTE PAÍS... VIXE!
Luiz Roberto Dalpiaz Rech

"Nunca na história deste País"... Temos escutado freqüentemente o presidente Lula utilizando-se desse palavreado para justificar atitudes do atual governo. Aproveito o modismo e utilizo-me deste “jarção presidencial” para externar a minha preocupação com um estudo feito pelo pesquisador Amaury de Souza, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), intitulado “A Agenda Internacional do Brasil”. O relatório mostra que o país pode perder R$ 3,6 trilhões em 40 anos, o que significa descartar um ano inteiro de crescimento econômico. O relatório prevê que cada cidadão brasileiro pode perder entre R$ 534 e R$ 1.603 de PIB per capita em 2050.
Além do bolso do cidadão brasileiro, há também os aspectos sociais. Nesse âmbito, a alteração climática caminha no sentido de agravar a desigualdade social no país. O relatório é claro: “os custos e riscos potenciais da mudança de clima no Brasil pesariam mais sobre as populações pobres do Norte e Nordeste, de modo que as políticas de proteção social nestas regiões devem ser reforçadas”.
No Norte, a temperatura pode aumentar de 7º a 8º C em 2100, o que acarretaria a redução de 40% da cobertura vegetal na Amazônia. No Nordeste, as chuvas tendem a diminuir de 2 a 2,5 mm/dia – com a previsão de reduzir em 25% a capacidade da pecuária bovina. Sul, Sudeste e Centro-Oeste também teriam consequências como enchentes e aumento insuportável da temperatura nas cidades. Mas no Norte e Nordeste as consequências seriam ainda mais graves.
Sabemos que há controvérsias entre cientistas em relação às mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global. Alguns desconsideram a teoria de que a terra está se aquecendo além dos níveis normais (O outro lado: a grande farsa do aquecimento global). Outros consideram que o aquecimento global é consequência das ações humanas – especialmente após a segunda revolução industrial (1850-1870) – e outros ainda, um efeito natural decorrente de alterações cíclicas do planeta. Independentemente da posição, no entanto, é possível vislumbrar implicações decorrentes de um aumento da temperatura do planeta.
De uma coisa certa, nunca na história deste país eu vi tanta água rolar neste Rio Grande, especialmente nas minhas queridas cidades de Maquiné e Porto Alegre.
Há pelo menos 23 anos o Rio Grande do Sul não era inundado por chuvas tão intensas em um mês de novembro como as que castigam os gaúchos. Comprovando a temporada histórica de chuvaradas, o 8º Distrito de Meteorologia não tem registro de um novembro tão úmido como o atual em regiões como as de Porto Alegre, Bagé, Pelotas e Santa Maria.
Nunca na história desta país..., mesmo. VIXE!


Jornalista. Adm. Legislativa.