quinta-feira, 21 de abril de 2011

O PUNHAL E A POLÍTICA

Luiz Roberto Dalpiaz Rech

Segundo um provérbio Chinês, há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a oportunidade perdida e a palavra pronunciada.
Abstraio a primeira e a segunda e fico com a palavra dita que, além de não voltar atrás pode provocar um verdadeiro tsumani por onde passa. Ou, ao contrário. Pode realizar verdadeiros milagres.
Certo dia, ao abrir um dos jornais de grande circulação, deparei com uma manchete que, num primeiro momento parecia um pouco bizarra mas, aos poucos, passei a entender o real sentido daquela frase. Dizia o seguinte: “Noite dos longos punhais”. Era uma referência ao debate sobre a CPMF, por parlamentares no Congresso Nacional. A matéria concluía assim: “Foi uma noite de punhaladas” referindo-se, obviamente aos discursos (verdadeiros punhais) que tinham como alvo o presidente Lula e membros da sua equipe econômica.
Você já pensou sobre a força das palavras? Sim, afinal, as palavras podem libertar e oprimir, alegrar e entristecer, fazer viver e fazer morrer, aliviar e angustiar, rir e chorar, incentivar e esmorecer, amar e odiar como provocar uma avalanche de denúncias e escândalos. Esses ficam por conta de áudios gravados durante operações da Polícia Federal, que investiga fraudes em licitações de obras no Estado. Nas gravações, constam diálogos de deputados que supostamente agiriam em benefício de empresas privadas. Lembro-me que, em relação a estes áudios, um parlamentar disse estar “enojado” do que acabara de ouvir (da palavra dita).
A escritora Lya Luft afirma que a palavra faz parte da nossa essência: com ela, nos acercamos do outro, nos entregamos ou nos negamos, apaziguamos, ferimos e matamos. Com a palavra, liquidamos negócios, amores. Eu complementaria essa lista afirmando que a palavra LIBERTA, mas também CONDENA.
Além do conteúdo das palavras, existe a forma de como elas são ditas.
Uma conhecida história árabe diz que, certa vez um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou mandou chamar um adivinho para que interpretasse o sonho.
- Que desgraça, senhor, falou o adivinho. Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade!
- Mas que insolente, gritou o sultão enfurecido. Como te atreves? Fora daqui!
Chamou os guardas e mandou que dessem cem chibatadas no adivinho.
O sultão chamou então, outro adivinho, que após ouvir o sultão disse:
- Senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haverá de sobreviver a todos os vossos parentes.
A fisionomia do sultão iluminou-se e ele mandou dar cem moedas de ouro ao segundo adivinho.
E quando este saía do palácio, um dos guardas lhe disse admirado.
- Não é possível! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com cem açoites e a você com cem moedas de ouro?
- Lembra-te meu amigo, respondeu o adivinho. Tudo depende da maneira de dizer as coisas.
É à força da palavra – ou punhal.

Jornalista. Administrador Legislativo

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